sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Feira do Livro da Livraria Solmar

Feira do Livro no Solmar Avenida Center from ARTilharia TV on Vimeo.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Inacessivel ao Leitor Apressado

Roberto Bolaño

Se fosse uma data, o título 2666 pareceria antecipar um inevitavelmente póstumo trabalho. O romance, que Bolaño escreveu pouco antes de morrer, abre com uma semente do Mal, transformada pelas cinco partes do livro no sonho de um escritor, Benno von Archimboldi. Na primeira parte, quatro críticos literários procuram-no nos seus textos enquanto as suas vidas se envolvem com ele, acabando por senti-lo nas ruas de Santa Teresa, uma versão disfarçada da mexicana Ciudad Juárez. Na segunda parte, a mesma cidade é o claustro onde o filósofo Amalfitano ensina, lê, recorda a mulher que o deixou, e imagina como escapar para encontrar Rosa, a sua filha adolescente. Na terceira, um jornalista desportivo chamado Destino chega a Santa Teresa para a cobertura de um desafio de boxe, mas acaba por envolver-se na investigação de crimes contra mulheres ocorridos na cidade. Esta teia leva à quarta parte, o verdadeiro coração negro do romance; uma impiedosa e exaustiva sucessão de assassínios, as suas datas e a sua fútil investigação. No final da última parte, assistimos à reaparição de Archimboldi, o pseudónimo de um escritor alemão que parece ter atravessado o Século XX apenas para chegar a Santa Teresa. Num desafio inacessivel ao leitor apressado, Bolaño demonstra em 2666, que consegue escrever como mais ninguém e como quiser, combinando a reflexão abstracta mais extrema com acção de tirar o fôlego. E assinando tudo isso com a sua inconfundível assinatura esquerdina.


terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Contas da Vida

No tempo em que os quatro anos da Escola Primária muniam, iam munindo, o alforge do nosso saber com uma musculada desenvoltura de conhecimentos, um implacável domínio da língua, um superior manejo do cálculo e um indelével uso da memória, nesse tempo em que ao diploma da quarta classe era atribuído, pelo seu estatuto de exigência, lugar cativo no muro das habilitações, eu estava predestinado para uma fecunda lide com a Matemática e/ou ciências “afins”.
- “Podes ter a certeza, Botelho! Foste feito para os números, e eles são o teu caminho!”, diziam-me, com ternura e entusiasmo, o Professor Raposo Silva e o Professor Rafael.



Eu quase não entendia aquela ideia de os números serem o meu caminho, mas não duvidava, nem duvido, da acertividade do seu julgamento.
O que eles não podiam prever, nem introduzir como variável no seu entusiasmo, aconteceu no meu primeiro ano do Liceu Nacional de Ponta Delgada.
Não recordo as notas – (vermelhas de vergonha, certamente) – que, nesse longo então de três períodos, alcancei em Matemática, mas a minha memória não esquece, nem perdoa, a aridez pedagógica com que foi recompensado o meu interesse, a minha vontade, o meu querer entender aquela nova e encantatória gramática de números e algarismos.
Cedo o meu apego a esse lume de inquietude intelectiva perdeu a chama, cedo se transformou em cinza de quase nada, cedo a Matemática vestiu a noite de pesadelos.



Relembro este episódio da minha vida, porque tenho andado a revisitar a obra de José Gomes Ferreira, poeta e prosador que é, desde sempre, um pássaro poisado na estante dos meus dias.
A determinado passo do seu “O MUNDO DOS OUTROS”, pode ler-se: “ (…) A mim, foi um professor de matemática quem estragou a infância (…)”.
Pois é!
Estar bem acompanhado na desdita não adoça as lágrimas, mas afaga a face.



Curiosamente, ainda hoje gosto de lutar com as palavras sobre uma folha de papel quadriculado.
Sabe-se lá porquê! ...



Emanuel Jorge Botelho
in Jornal Terra Nostra

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Melhor Filme Açoriano

André Laranjinha ganhou Melhor Filme Açoriano com o título A NATUREZA E O ENGENHO no Faial Filmes Fest
Muitos parabéns.

domingo, 8 de Novembro de 2009

SOS Cinema


Um cinema que divulgue obras contemporâneas e de autor, com uma programação assente na qualidade, diversidade, não sujeita aos critérios exclusivos do mercado.
A exibição dominada pelas salas da Castelo Lopes e com a facilidade que existe no cinema doméstico, cabe a essa sala alternativa criar e alimentar um público cinéfilo mais exigente e com sentido crítico, proporcionando ao espectador serviços associados, atendimento personalizado, serviço educativo, informação através de publicação e website sobre os filmes, sessões programadas e dirigidas, em vários formatos e géneros, da curta-metragem ao documentário, encontros com realizadores e críticos. Uma alternativa onde se possa conjugar outras artes e vários públicos não esquecendo o infantil e os idosos, um espaço não-elitista com o grande objectivo da defesa do cinema como uma expressão artística singular.
Em Ponta Delgada, isto só será possível com a sensibilização e conjugação dos poderes públicos (Autarquia, Governo regional, ICA – Instituto de Cinema e Audiovisual ), apoiar uma exploração consciente e sensata, para que seja possível ver outro cinema.

“ As únicas salas de cinema que cumpriram uma função, disse Charly Cruz, eram as velhas, lembras-te? Aqueles cinemas enormes que quando se apagavam as luzes o nosso coração se encolhia.
Aquelas salas, sim, eram verdadeiros cinemas, o mais parecido com uma igreja, tectos altíssimos, grandes cortinas vermelho grená, colunas, corredores com velhas alcatifas gastas, palcos, lugares de plateia, balcão ou galinheiro, edifícios construídos nos anos em que o cinema ainda era uma experiência religiosa, quotidiana, porém, religiosa, e que pouca a pouco foram demolidas para edificar bancos ou supermercados ou multicinemas.”

2666, Roberto Bolano

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Lançamento da mais recente reedição de "As Ilhas Desconhecidas", pela editora Artes e Letras, Ponta Delgada

Untitled from ARTilharia TV on Vimeo.

"As Ilhas Desconhecidas" de Raul Brandão - vídeo-livro

"As Ilhas Desconhecidas" de Raul Brandão. Um video-livro de Mário Roberto, a propósito da reedição deste clássico da literatura portuguesa, de novo disponível no mercado pela mão da editora Artes e Letras, sediada em Ponta Delgada





segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Visão da Madeira

"Tudo me sur­preende: o calor, a luz forte, o jardim com fetos e um grande jacarandá de flores roxas, arbus­tos penetrados de satisfação, que na imobilida­de e no silêncio vão desfolhando sobre a terra e deixando um charro rubro sobre outra água imobilizada. O ar é um perfume gordo. Sen­to-me sob os grandes plátanos que nos recebem ao desembarcar do porto — mancha impenetrá­vel e deliciosa. Subo: um largo irregular e depois a igreja, grande cofre de sândalo com doirados e incrustações em madrepérola. Lá dentro cheira a incenso e a madeira preciosa; cá fora, por cima dos telhados, descobre-se sempre a carcaça de­negrida da serra. Vou ao mercado — o mercado atrai-me: pequenino, com duas ou três árvo­res e uma fonte, todo ele transborda de fruta como um cesto cheio — cachos de bananas ama­relas, alcofas de vindima a deitar fora com da­mascos, figos pretos sumarentos e entreabertos, a destilar sumo. Toda a fruta aqui é deliciosa e a banana deixa na boca um perfume persisten­te para o resto da vida.” Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas.

domingo, 1 de Novembro de 2009

O Atlântico Açoriano

Foto: Eduardo Wallenstein

“Este oceano tem uma fisionomia concentrada e séria. Sai-se de manhã com o mar chão, re­gressa-se à tarde com o mar revolto e escuro. Quando menos se espera levanta-se ventania, e de quinze de Agosto em diante pode aparecer o ciclone. O canal do Faial para o Corvo é pe­rigoso e o do Corvo para as Flores está quase sempre de má catadura. Vão lá às vezes peque­nas embarcações, iates e escunas, mas já têm de­saparecido, sem mais se saber dos barcos nem dos homens. O canal entre o Pico e S. Jorge é mais profundo e por isso mesmo mais calmo. Há por aqui crateras escondidas sob as águas, e a lava vem de quando em quando à superfície, se não é uma ilha inteira que aparece e desaparece logo. Ao carácter destas águas, sujeitas a cóleras súbitas, junta-se o da terra, que treme quase to­dos os dias (Faial) pondo os corações em sobres­salto, o da fantasmagoria produzida pelas costas vulcânicas, pela luz que hesita, pára, transfor­ma-se, desvendando um píncaro, rochas dra­máticas e terras que não existem e são o efeito mágico da própria claridade envolta em nebli­na. Graça, delicadeza, rosados entranham-se no mar cinzento e que por isso mesmo se afigura maior: nuvens ascendem como fumo das cra­teras; juntam-se os cúmulos, por onde passam raios bíblicos de sol; luz molhada, luz coada por farrapos, por névoas que se criam inesperada­mente produzindo efeitos singulares...” Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas.

sábado, 31 de Outubro de 2009

As Sete Cidades e as Furnas

Foto: Eduardo Wallenstein

"Existe ou sonhei esta água parada, esta grande cova selvática empoada de roxo, com aquela serenidade a ferros lá no fundo? Esta be­leza estranha que não nos larga e nos contempla ao mesmo passo que a contemplamos?O carácter da paisagem é delicado e ocul­to. Embora a gente veja o campanário e as ca­sas minúsculas no fundo da enorme cratera, duvida, e chega a supor que a vara dum mági­co fez parar o tempo, e aquilo se conserva en­cantado entre montes desmedidos e brutos que o guardam prisioneiro. O tempo passa, os ho­mens passam; só ali tudo está suspenso, na ati­tude fixa no momento do prodígio. Na solidão mágica não se ouve cantar um pássaro, a água não bole, as flores não bolem. Tudo se mos­tra na amplidão da cratera aberta para o céu e num grande silêncio estarrecido. Tão pouca tinta! Um quadro feito de emoção; um quadro em que o verde não chega a ser verde, em que o azul é névoa, e um sopro o pó roxo suspenso no ar, puro hálito da paisagem arfando. Três ris­cos muito leves para fixar o encanto, como se fosse possível só com sentimento e quase nada de cor, fazer uma obra-prima. Reparo que há efectivamente uns carreiros perdidos por entre os montes para descer lá abaixo. Mas eu não me atrevo! Tenho medo de que ao aproximar-me a visão se desvaneça no ar!..." Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas.